Engenharia da EscritaEngenharia da EscritaInscrever-se

Estudo · Segunda pessoa

Escrita criativa na prática: o truque de Italo Calvino que transforma quem lê no personagem principal do próprio livro

Se um Viajante numa Noite de Inverno · Italo Calvino, 1979 · Leitura de 6 minutos

Poltrona e luz de leitura remetendo a Se um Viajante numa Noite de Inverno, romance de Italo Calvino que inspira o estudo da segunda pessoa

A maioria dos romances abre do mesmo jeito: uma janela se abre e um personagem aparece do lado de dentro, fazendo algo, enquanto quem lê observa de fora. Um romance italiano de 1979 decide o oposto. Ele não mostra alguém entrando numa cena. Ele manda você entrar.

A abertura descreve a poltrona em que você se acomoda, a luz que você ajusta, a livraria onde você comprou o próprio livro que segura nas mãos. Esse recurso tem nome técnico e é um entre vários instrumentos que a escrita criativa oferece pra prender quem lê. Este estudo desmonta como ele funciona, de onde vem e o erro mais comum de quem tenta repetir o efeito.

O que é escrita criativa

Escrita criativa é o conjunto de técnicas que um autor usa pra produzir um efeito específico em quem lê, além da gramática correta e da história bem contada. Metáfora, ponto de vista não confiável, monólogo interior, flashback: cada um é um recurso, e nenhum sozinho define o campo inteiro.

Um desses recursos é o endereçamento direto, quando o texto trata quem lê como personagem da própria cena, em vez de narrar a ação em terceira pessoa. O nome técnico é narração em segunda pessoa, e é o recurso específico que este estudo desmonta, usando um exemplo real de um romance que fez dele sua estrutura inteira.

O contexto: Italo Calvino e Se um Viajante numa Noite de Inverno

Italo Calvino nasceu em 1923 em Santiago de las Vegas, Cuba, filho de pais italianos que trabalhavam com botânica. A família voltou pra Itália ainda na infância dele, e Calvino cresceu em San Remo, na costa da Ligúria.

Durante a Segunda Guerra, ainda jovem, ele se juntou à Resistência italiana contra o fascismo. Entrou pro Partido Comunista logo depois, e deixou o partido em 1957, no ano seguinte à invasão soviética da Hungria. Seguiu carreira como escritor e editor na Einaudi, uma das principais editoras da Itália.

Se um Viajante numa Noite de Inverno (Se una notte d'inverno un viaggiatore), publicado em 1979, é um romance sobre o ato de ler um romance. Os capítulos ímpares narram, em segunda pessoa, a tentativa de um leitor de terminar o livro que comprou. Os capítulos pares são os começos de dez romances diferentes, cada um interrompido antes do fim.

Linha do tempo: de Calvino ao romance sobre ler um romance

  1. 1923Italo Calvino nasce em Santiago de las Vegas, Cuba, filho de pais italianos, e pouco depois a família se muda pra San Remo, na Itália.
  2. 1943Ainda jovem, entra pra Resistência italiana contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.
  3. 1947Publica seu primeiro romance, O Caminho dos Ninhos de Aranha, e começa a trabalhar como editor na Einaudi.
  4. 1957Deixa o Partido Comunista Italiano, no ano seguinte à invasão soviética da Hungria.
  5. 1979Publica Se um Viajante numa Noite de Inverno, o romance que narra em segunda pessoa a tentativa de um leitor de terminar o livro que comprou.
  6. 1985Morre em Siena aos 61 anos, enquanto preparava a série de conferências de Harvard publicada depois como Seis Propostas para o Próximo Milênio.

Um texto como este, toda manhã às 09:09

Engenharia da Escrita abre um texto real na bancada todo dia, com a engrenagem exposta pra você copiar.

+2.794 leitores já recebem

1 email/dia · 5 minutos · Cancele quando quiser

A mecânica do pronome de convocação

O princípio tem nome dado pela própria análise deste romance: pronome de convocação. Ele opera em três engrenagens, e as três engatam ao mesmo tempo.

Apaga a distância entre página e leitor. Na terceira pessoa existe uma vidraça: o personagem está lá dentro, você está aqui fora observando. Trocar "ele entrou" por "você entra" quebra essa vidraça, e a cena deixa de ser algo que você assiste pra virar algo que acontece com você.

Transfere a ação pro corpo de quem lê. Quando o texto pede "relaxe" ou "encontre a posição mais cômoda", ele não descreve um gesto, solicita um. O leitor confere a própria postura na poltrona, e a ordem na página vira movimento fora dela.

Funciona como molde vazio. O pronome "você" não tem rosto. Ele se encaixa em qualquer leitor que o ocupe, e cada um veste a cena como se tivesse sido escrita sob medida pra ele.

O erro comum: fechar o personagem com detalhes específicos demais

O primeiro erro é confundir o "você" de convocação com um simples vocativo, do tipo "leitor, preste atenção". O vocativo interrompe a cena pra falar com quem lê de fora. O pronome de convocação faz o oposto: coloca quem lê dentro da cena, como sujeito que executa a ação.

O segundo erro é mais sutil e mais comum. Quem tenta reproduzir o efeito costuma detalhar demais a cena, dar um nome à livraria, descrever um rosto específico, fixar uma hora exata do dia. Cada detalhe fechado assim tira uma fatia de leitores que não se reconhecem ali.

O pronome funciona porque é genérico o bastante pra caber em qualquer um. Quanto mais a cena ao redor dele também for genérica, mais fácil o leitor reconhecer a própria poltrona, a própria luz, na cena que o texto descreve.

Como aplicar a segunda pessoa hoje

Pegue um trecho seu que narra alguém agindo numa cena, na terceira pessoa, do tipo que o leitor lê sem nunca se sentir lá dentro. Troque o personagem por "você" e passe os verbos principais pro presente ou pro imperativo, sem nomear ninguém.

Depois corte qualquer detalhe específico demais que feche a cena num único dono: nome próprio, rosto marcado, hora exata. Deixe só o que qualquer leitor reconheceria como seu.

Leia em voz alta antes e depois da troca. A versão em segunda pessoa costuma transmitir uma presença que a terceira pessoa só narrava, porque o leitor para de assistir um estranho e passa a se ver fazendo o que a frase descreve.

Perguntas frequentes

O que é narração em segunda pessoa?

É a técnica de escrita criativa em que o texto dirige os verbos diretamente a "você", tratando quem lê como o próprio protagonista da cena, em vez de narrar as ações de um personagem em terceira pessoa (ele, ela) ou primeira pessoa (eu).

A segunda pessoa funciona em qualquer tipo de texto?

Funciona melhor quando o objetivo é fazer quem lê sentir a cena por dentro, em vez de assistir de fora. Calvino usou o recurso num romance inteiro, mas ele também aparece em manuais, jogos de aventura em texto e em parte da publicidade que fala direto com o consumidor.

Qual é o livro de Italo Calvino que usa segunda pessoa do começo ao fim?

Se um Viajante numa Noite de Inverno, publicado em 1979. Os capítulos ímpares narram em segunda pessoa a tentativa de um leitor de terminar o romance que comprou, enquanto os capítulos pares trazem os começos de dez livros diferentes, cada um interrompido.

A próxima engrenagem chega amanhã

Receba o próximo texto desmontado no seu email. Todo dia, às 09:09. Gratuito.

+2.794 leitores já recebem

1 email/dia · 5 minutos · Cancele quando quiser