Estudo · Amarração invisível
Coesão e coerência: o guia da amarração invisível, o que sobra de um texto quando José Saramago tira as aspas, os travessões e até os nomes dos personagens
Ensaio sobre a Cegueira · José Saramago, Lisboa, 1995 · Leitura de 27 minutos

Neste estudo
- 1.Coesão e coerência: duas coisas diferentes
- 2.Os cinco mecanismos de coesão
- 3.O que o romance retira, e o que ele mantém
- 4.Personagens sem nome: a prova mais limpa
- 5.A cadeia referencial, dissecada
- 6.Coerência: o que a pontuação nunca resolveu
- 7.A regra estável: como um mundo inventado fica coerente
- 8.O parágrafo longo e o que ele cobra
- 9.Coesão em tela: email, chat e documentação
- 10.As duas falhas que arrebentam um texto
- 11.A tabela: coeso, coerente, e os quatro cruzamentos
- 12.O que copiar do romance, e o que não copiar
- 13.O método de revisão em seis passos
- 14.Exercício: consertar um parágrafo arrebentado
- 15.Cinco erros mais comuns
- 16.Perguntas frequentes
Em 1995, José Saramago publicou um romance que retira do texto quase tudo o que a escola ensina como responsável por manter um texto amarrado. Não há aspas nas falas. Não há travessão de diálogo. As falas não ocupam linha própria: entram no meio do parágrafo, separadas por vírgula, marcadas apenas por uma letra maiúscula. Os parágrafos se estendem por páginas. E nenhum personagem tem nome.
O leitor acompanha seis figuras principais ao longo do livro inteiro sabendo apenas que uma delas é o médico, outra é a mulher do médico, outra é a moça dos óculos escuros. Três anos depois, em 1998, o autor recebeu o Nobel de Literatura.
O caso é o melhor argumento disponível contra a confusão mais comum do ensino de português: a ideia de que coesão é pontuação. Se fosse, o romance seria ilegível. Ele não é.
Este guia separa as duas noções e mostra o que cada uma realmente faz: a definição correta de coesão e de coerência, os cinco mecanismos descritos em 1976, o que o romance retira e o que ele mantém, a cadeia referencial dissecada, as falhas que arrebentam um texto, a diferença entre texto coeso e texto coerente, o método de revisão em seis passos e os erros mais frequentes.
Coesão e coerência: duas coisas diferentes
A confusão começa porque as duas palavras aparecem sempre juntas, e vale separá-las com precisão antes de qualquer exemplo.
Coesão é a amarração da superfície. São os mecanismos linguísticos que ligam uma parte do texto à outra: pronomes que retomam, conectivos que relacionam, termos que se repetem, elementos que somem e continuam sendo entendidos. Ela é observável, se conta e se corrige linha a linha.
Coerência é a amarração do sentido. É a propriedade que faz o conjunto formar uma unidade compreensível: os fatos não se contradizem, a ordem das ideias faz sentido, o texto não muda de assunto sem razão, e o leitor consegue construir na cabeça um mundo estável a partir do que leu.
A prova de que são independentes é que existem os quatro cruzamentos possíveis.
Texto coeso e incoerente: as frases se ligam com perfeição e o conjunto não faz sentido. É o que produz uma redação bem-conectada sobre um tema que quem escreveu não entendeu.
Texto coerente e pouco coeso: as ideias fazem sentido e a superfície é áspera, cheia de repetições e de saltos. É o caso de muita anotação técnica correta e mal escrita.
E o caso que interessa aqui, o quarto: um texto que abre mão dos sinais convencionais de amarração e permanece coeso e coerente, porque os mecanismos que fazem o trabalho nunca foram os sinais.
Os cinco mecanismos de coesão
O estudo moderno do assunto tem uma referência fundadora, e ela é útil porque lista os mecanismos em vez de descrevê-los vagamente.
Repare no que a lista não inclui: aspas, travessão, ponto final, parágrafo. Nenhum dos cinco mecanismos é um sinal gráfico. Todos são operações da língua.
Referência é o mecanismo mais usado e o que mais falha. Um pronome, um demonstrativo ou um artigo definido aponta para algo já mencionado. Ele, ela, aquele, a mesma, o tal. O leitor precisa saber para onde a seta aponta, e quando existe mais de um destino possível a cadeia arrebenta.
Substituição troca uma expressão por uma forma curta que ocupa o lugar dela. Quero um igual. Faço o mesmo. Ela difere da referência porque substitui a forma, não o referente.
Elipse apaga um termo e conta com quem lê para recuperá-lo. Ele quis sair, ela não quis. O segundo verbo some e ninguém sente falta.
Conjunção marca o tipo de relação entre as partes: oposição, causa, consequência, tempo, concessão. É o mecanismo mais visível e o mais mal usado, porque um conectivo errado inverte o sentido de um parágrafo inteiro sem nenhum sinal de alarme.
Coesão lexical amarra por vocabulário: repetir a palavra, usar sinônimo, usar termo do mesmo campo. É o mecanismo mais desprezado pelo ensino, que costuma pedir para evitar repetição, e o mais confiável de todos, porque não depende de o leitor resolver nenhuma seta.
O que o romance retira, e o que ele mantém
Vale olhar exatamente o que foi removido, porque a lista é mais curta do que parece.
Foram removidos os recursos gráficos do discurso direto: aspas, travessão e a mudança de linha a cada fala. No lugar deles, as falas entram no parágrafo separadas por vírgula, e a letra maiúscula no meio da frase avisa que alguém passou a falar.
Foi removida também a divisão em parágrafos curtos, e blocos de texto se estendem por páginas.
E foram removidos os nomes próprios.
Agora repare no que foi mantido, porque é a parte instrutiva. Foram mantidos os cinco mecanismos, todos, com rigor maior do que o normal. A referência é obsessivamente controlada. A coesão lexical trabalha em tempo integral. A conjunção aparece explicitada onde um texto convencional deixaria implícita.
A leitura correta do caso, portanto, não é que o autor abandonou as regras. É que ele trocou os recursos baratos por recursos caros. Aspas custam nada e resolvem a atribuição de fala automaticamente. Sem elas, cada troca de falante precisa ser resolvida pela sintaxe e pelo vocabulário, o que exige controle em cada linha.
Personagens sem nome: a prova mais limpa
O detalhe dos nomes é o que transforma o romance num experimento sobre coesão.
Nome próprio é o mecanismo de referência mais eficiente que existe. Ele é único, não ambíguo, curto e não depende de contexto. Um texto com nomes pode ser desleixado com pronomes e ainda assim funcionar, porque o nome aparece de tempos em tempos e reorganiza tudo.
Ao retirá-lo, o romance se obriga a manter a identificação de seis pessoas por outros meios ao longo de centenas de páginas. E os meios são exatamente os da lista de 1976: designações descritivas repetidas com constância, ou seja, coesão lexical pura.
Repare que as designações não variam. A mulher do médico é chamada de a mulher do médico da primeira à última página. Um manual de redação escolar chamaria a constância de repetição excessiva e pediria variação. A variação, ali, destruiria o livro.
A lição prática é dura e vale para qualquer texto: a regra de evitar repetição é a pior herança do ensino de redação. Repetir o termo exato é o mecanismo de coesão mais confiável que existe. A troca por sinônimo introduz uma pergunta na cabeça de quem lê, que é se o novo termo designa a mesma coisa ou outra, e a pergunta custa mais do que a repetição custaria.
Um texto como este, toda manhã às 09:09
Engenharia da Escrita abre um texto real na bancada todo dia, com a engrenagem exposta pra você copiar.
1 email/dia · 5 minutos · Cancele quando quiser
A cadeia referencial, dissecada
O mecanismo que mais falha merece uma demonstração no nível da frase.
Quatro mecanismos operando em vinte palavras, e nenhum deles é um sinal de pontuação.
O ponto frágil está no terceiro. O pronome o precisa apontar para o primeiro cego, e aponta, porque não há outro candidato masculino singular disponível na frase. Acrescente um segundo homem antes dele e a cadeia arrebenta na hora.
A regra prática que resolve noventa por cento dos problemas de coesão em texto profissional cabe numa linha: um pronome só é seguro quando existe exatamente um candidato a antecedente na vizinhança. Havendo dois, repita o substantivo, mesmo que soe pesado. Peso é preferível a releitura.
Existe um teste mecânico para aplicar em revisão. Marque todos os pronomes de terceira pessoa do texto e, para cada um, escreva ao lado a que ele se refere. Onde você hesitar, quem lê vai hesitar também, e quem lê não tem o texto inteiro na cabeça como você tem.
Coerência: o que a pontuação nunca resolveu
A segunda metade do assunto costuma receber um terço da atenção, e é onde os textos realmente quebram.
Coerência depende de três coisas, e nenhuma é gramatical.
Não contradição. O texto não pode afirmar duas coisas incompatíveis. É a falha mais fácil de detectar e a mais constrangedora quando escapa.
Progressão. Cada parte precisa acrescentar algo. Um texto que repete a mesma informação com outras palavras é coeso e não progride, e quem lê sente que está parado sem conseguir dizer por quê.
Relevância. Tudo que está ali precisa pertencer ao assunto. Um parágrafo excelente sobre outra coisa quebra a coerência mesmo estando perfeitamente escrito.
Existe um quarto fator, menos citado e decisivo em texto profissional: o conhecimento partilhado. Coerência não é propriedade só do texto, é relação entre texto e leitor. Um documento perfeitamente coerente para quem participou da reunião pode ser incompreensível para quem não participou, e a incompreensão não se conserta com conectivo.
O romance de 1995 é coerente apesar da forma incomum porque respeita as quatro condições com rigor. A epidemia tem regras estáveis, as consequências se acumulam em ordem, nada aparece por acaso, e o conhecimento que o leitor precisa ter é fornecido no próprio texto.
A regra estável: como um mundo inventado fica coerente
A parte mais transferível do romance não está na frase, está na construção do mundo, e ela vale para qualquer texto que peça ao leitor para aceitar uma premissa.
A epidemia do livro tem regras, e as regras não mudam. A cegueira é branca, não escura, e chega de repente. Ela se transmite pelo convívio. Não dói. Uma personagem, e só uma, permanece enxergando, sem explicação oferecida.
Repare no procedimento: as regras são poucas, são declaradas cedo e nunca são violadas por conveniência. Quando uma cena precisa de uma solução, ela é resolvida dentro das regras já estabelecidas, e não com uma exceção nova.
É exatamente disto que a coerência é feita em qualquer texto que constrói alguma coisa. Um relatório que define uma métrica na página dois não pode calculá-la de outro jeito na página nove. Um documento que estabelece três critérios de decisão não pode aplicar um quarto no meio sem anunciar. Uma proposta que promete um escopo não pode entregar outro na seção de preço.
A violação costuma ser inconsciente e sempre tem a mesma causa: quem escreve resolve um problema local sem reler o que já estabeleceu. E o custo é alto porque o leitor não localiza a inconsistência, apenas sente que o documento não é confiável.
A defesa é mecânica. Antes de fechar um texto longo, liste em quatro ou cinco linhas as regras que ele estabeleceu, e confira cada uma contra o texto inteiro. É o passo de revisão de maior retorno em documento de trabalho, e o mais pulado.
O parágrafo longo e o que ele cobra
Vale tratar do bloco de texto, porque a escolha do romance parece uma questão de estilo e é uma questão de carga.
Parágrafo curto entrega ao leitor um serviço invisível: ele segmenta. Cada quebra é uma sinalização de que uma unidade terminou e outra começou, e o olho usa a marca para se organizar na página.
Ao suprimir a segmentação, o texto transfere o trabalho inteiro para a sintaxe. Quem lê precisa perceber, pela própria estrutura das frases, onde uma unidade acaba. Funciona no romance porque cada frase foi construída para funcionar assim, com uma disciplina de referência que não sobra em texto comum.
A consequência prática para quem escreve fora da literatura é a inversa da que costuma ser tirada. Como o texto de trabalho é lido rápido, em tela, com interrupção, ele precisa de mais segmentação, não de menos. O parágrafo curto, o subtítulo e a lista são, no ambiente de leitura atual, mecanismos de coesão tão legítimos quanto os cinco da lista de 1976.
E vale nomear o critério de corte, porque a maior parte das pessoas quebra parágrafo por tamanho. O critério correto é de unidade: um parágrafo trata de uma coisa. Quando o assunto muda, quebra, independente de quantas linhas se acumularam. Quando não muda, não quebra, mesmo que fique longo.
Coesão em tela: email, chat e documentação
O ambiente de leitura mudou, e três formatos concentram quase todos os problemas de amarração no trabalho.
Email longo. A falha característica é o pronome órfão em cadeia, porque quem escreve tem o assunto inteiro na cabeça e o destinatário tem só a linha que está lendo. A regra de sobrevivência é repetir o substantivo mais do que parece necessário, principalmente depois de qualquer quebra de parágrafo.
Conversa de chat. Aqui a coesão se quebra por outro motivo: as mensagens de outras pessoas entram no meio da sequência. Uma pergunta feita e respondida quatro mensagens depois já perdeu o antecedente. A defesa é repetir a referência dentro da própria resposta, em vez de contar com a proximidade.
Documentação. A falha característica é a mudança silenciosa de sentido de um termo entre seções escritas por pessoas diferentes em momentos diferentes. O conserto não é de redação, é de glossário: definir o termo uma vez, num lugar, e usá-lo sempre igual.
Os três casos têm a mesma solução de fundo, e ela é a mesma que o romance aplica por outros motivos: repetição constante do termo exato, sem variação elegante. É feio na leitura em voz alta e é o que mantém o texto de pé quando ele é lido em pedaços.
As duas falhas que arrebentam um texto
Na prática, quase todo problema de amarração é uma de duas coisas.
Pronome órfão. O texto usa ele, ela, aquilo, o mesmo, sem que exista um antecedente único e próximo. É a falha número um de relatório, de email longo e de documentação. Ela raramente é percebida por quem escreveu, porque quem escreveu sabe do que está falando.
Conectivo mentiroso. O texto usa portanto onde não há consequência, mas onde não há oposição, e no entanto onde não há contraste. O conectivo promete uma relação lógica que o conteúdo não entrega, e quem lê passa dois segundos tentando enxergar a relação antes de seguir em frente desconfiado.
O segundo é mais grave do que parece porque é invisível na revisão comum. A frase está gramaticalmente correta, o texto flui, e mesmo assim o raciocínio não fecha. O leitor sai com a impressão de que o argumento é fraco, sem localizar onde.
O teste do conectivo é simples: cubra a palavra e pergunte que relação existe entre as duas partes. Se a resposta não for a relação que o conectivo anuncia, troque ou corte.
A tabela: coeso, coerente, e os quatro cruzamentos
| Situação | Coeso | Coerente | Como aparece no texto |
|---|---|---|---|
| Texto bem escrito | Sim | Sim | Lê-se sem voltar, e o argumento fecha |
| Redação de tema mal compreendido | Sim | Não | Conectivos impecáveis, conclusão que não segue |
| Anotação técnica correta | Não | Sim | Áspero, repetitivo, e ainda assim entendível |
| Texto gerado sem controle | Não | Não | Pronomes órfãos e assunto que muda sozinho |
A linha mais útil é a segunda, porque descreve o defeito mais premiado pela escola: um texto que usa todos os conectivos certos e não sustenta nenhuma ideia. Coesão é fácil de simular. Coerência não é.
O que copiar do romance, e o que não copiar
Vale separar, porque o caso é de estudo e não de imitação.
Não copie a supressão de pontuação. Ela funciona num projeto literário em que a forma é parte do assunto, com um autor que controla cada linha, e destrói qualquer texto de trabalho. Um relatório sem aspas não é ousado, é ilegível.
Copie a repetição do termo exato. Chamar a mesma coisa sempre pelo mesmo nome, sem procurar sinônimo, é a decisão de escrita profissional de melhor retorno que existe.
Copie o controle de referência. Um pronome por antecedente disponível, e nunca mais de um.
Copie a explicitação da relação. Onde o texto convencional deixa a conexão implícita e confia no leitor, vale explicitar. Custa três palavras e economiza uma releitura.
Copie a estabilidade das regras internas. No romance, a epidemia se comporta sempre do mesmo jeito. Em texto profissional, o equivalente é definir um termo uma vez e usá-lo sempre no mesmo sentido.
O método de revisão em seis passos
Coesão e coerência quase não se resolvem escrevendo. Resolvem-se revisando, e a revisão tem uma ordem que funciona.
1. Leia só os pronomes. Marque cada ele, ela, o, a, aquele, o mesmo, e escreva ao lado o antecedente. Onde hesitar, troque pelo substantivo.
2. Leia só os conectivos. Cubra cada um e verifique se a relação anunciada é a relação existente. Corte os que não têm função.
3. Leia só a primeira frase de cada parágrafo. Em sequência, elas devem contar o argumento inteiro. Se não contarem, o problema é de progressão.
4. Procure os sinônimos elegantes. Todo lugar em que você trocou um termo por outro para não repetir é um candidato a confusão. Devolva o termo original.
5. Pergunte o que o leitor sabe. Liste o que o texto pressupõe e confirme que cada item foi fornecido antes de ser usado.
6. Leia em voz alta o texto inteiro. Coerência tem uma assinatura auditiva: onde você tropeçar sem saber por quê, quase sempre há um salto de sentido.
Exercício: consertar um parágrafo arrebentado
O método fica claro aplicado a um parágrafo ruim de escritório. Tome este:
Enviamos a proposta ao cliente e ele respondeu na sexta. O documento pedia ajuste no escopo, portanto marcamos reunião com o time. Eles acharam que o mesmo não cabia no prazo. Ademais, o instrumento precisa ser revisto até quinta.
Ele está gramaticalmente correto e é ilegível. Vamos passar os seis passos.
Passo 1, pronomes. Ele responde ao cliente ou à proposta? Ambos são possíveis. Eles são o time ou o cliente? Também ambos. O mesmo aponta para o quê, o ajuste ou o escopo? Nenhuma das três setas tem destino único.
Passo 2, conectivos. Portanto anuncia consequência, e não há consequência entre pedir ajuste e marcar reunião: há sequência. Ademais anuncia acréscimo a um argumento que não existe.
Passo 3, primeira frase de cada parágrafo. Só há um parágrafo, e ele mistura quatro assuntos: envio, resposta, reunião e prazo.
Passo 4, sinônimos elegantes. Proposta, documento e instrumento designam a mesma coisa. Cliente e ele, também. Cada troca custa uma decisão a quem lê.
Passo 5, conhecimento partilhado. Que ajuste no escopo? O texto pressupõe que o destinatário sabe.
A versão reescrita:
Enviamos a proposta ao cliente na terça. O cliente respondeu na sexta pedindo um ajuste no escopo: retirar a etapa de migração. Marcamos reunião com o time na segunda para avaliar o pedido. O time concluiu que o escopo reduzido continua não cabendo no prazo atual. A proposta precisa ser revista até quinta.
Compare o que mudou. Nenhum pronome ambíguo sobrou. Proposta é chamada de proposta cinco vezes. Cada frase trata de um fato. O conectivo mentiroso sumiu e nada tomou o lugar dele, porque a ordem cronológica já entrega a relação. E o ajuste foi nomeado.
O texto ficou mais longo em palavras e mais curto em tempo de leitura, que é a troca que a coesão sempre propõe.
Cinco erros mais comuns
O primeiro erro é o sinônimo elegante. Trocar contrato por instrumento, por acordo, por documento na mesma página obriga quem lê a decidir a cada troca se é a mesma coisa.
O segundo é o pronome distante. Um ele que aponta para um substantivo que apareceu dois parágrafos antes já perdeu o alvo.
O terceiro erro é o conectivo decorativo. Portanto, ademais, outrossim usados como enfeite de transição, sem relação lógica real por trás.
O quarto é o parágrafo sem tópico. Um bloco em que nenhuma frase declara do que ele trata quebra a progressão mesmo estando bem escrito.
O quinto é a mudança silenciosa de sentido de um termo. Chamar de cliente o comprador na primeira metade e o usuário na segunda, sem avisar, produz um texto que é coeso e mesmo assim incompreensível.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre coesão e coerência?
Coesão é a amarração da superfície: pronomes, conectivos, repetições e elipses ligando uma parte à outra. Coerência é a amarração do sentido: ausência de contradição, progressão de ideias e relevância do que está ali. Um texto pode ter uma sem a outra, e a combinação mais comum na escola é o texto perfeitamente coeso cujo argumento não fecha.
Quais são os mecanismos de coesão?
Cinco, segundo M. A. K. Halliday e Ruqaiya Hasan em Cohesion in English, de 1976: referência, substituição, elipse, conjunção e coesão lexical. Nenhum deles é sinal de pontuação, o que explica por que um texto pode dispensar aspas e travessões sem perder amarração.
Por que Saramago não usa aspas nem travessão?
Porque o discurso direto, no romance, entra no próprio parágrafo separado por vírgula, com a fala marcada por letra maiúscula no meio da frase. O procedimento apaga a fronteira entre narração e fala e obriga o leitor a se orientar pela sintaxe. O trabalho que as aspas fariam de graça passa a ser feito pelo controle de referência e pela repetição de designações.
Por que os personagens de Ensaio sobre a Cegueira não têm nome?
Eles são identificados por designações descritivas: o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, a moça dos óculos escuros, o velho da venda preta, o menino estrábico. A ausência de nome próprio retira do texto o mecanismo de referência mais eficiente que existe e obriga o romance a manter a identificação por repetição constante das designações.
O que é coesão lexical?
É a amarração feita por vocabulário, sem nenhum pronome ou conectivo: repetir a mesma palavra, usar um sinônimo controlado ou usar um termo do mesmo campo semântico. É o menos ensinado dos cinco mecanismos e o mais confiável, porque não exige que quem lê resolva nenhuma seta. Em Ensaio sobre a Cegueira, a identificação dos personagens ao longo do livro inteiro é feita quase só por ela.
Um texto pode ser coerente e pouco coeso?
Pode, e é comum em anotação técnica: as ideias fazem sentido, a ordem está correta, e a superfície é áspera, repetitiva e cheia de saltos. O contrário também existe e é mais perigoso, porque a escola premia: um texto com conectivos impecáveis cuja conclusão não decorre de nada do que veio antes. Coesão é fácil de simular, coerência não.
Repetir a mesma palavra é erro?
Não é. É o mecanismo de coesão mais confiável que existe, e a regra escolar de evitar repetição é a pior herança do ensino de redação brasileiro. Trocar um termo por sinônimo introduz na cabeça de quem lê a pergunta sobre se o novo termo designa a mesma coisa, e a pergunta custa mais atenção do que a repetição custaria.
Como saber se um pronome está seguro?
Um pronome só é seguro quando existe exatamente um candidato a antecedente na vizinhança. Havendo dois, repita o substantivo mesmo que soe pesado. O teste de revisão é marcar todos os pronomes de terceira pessoa e escrever ao lado a que cada um se refere: onde quem escreveu hesita, quem lê também hesita.
O que é um conectivo mentiroso?
É o conectivo que anuncia uma relação lógica que o conteúdo não entrega: portanto onde não há consequência, mas onde não há oposição. É invisível na revisão comum porque a frase está correta, e produz no leitor a impressão de argumento fraco sem que ele localize a causa. O teste é cobrir a palavra e verificar que relação de fato existe.
Coerência depende só do texto?
Não. Depende também do conhecimento partilhado entre texto e leitor. Um documento perfeitamente coerente para quem esteve na reunião pode ser incompreensível para quem não esteve, e a falha não se conserta com conectivo: conserta-se fornecendo, dentro do texto, tudo que ele pressupõe antes de usar.
Como melhorar a coerência de um texto?
Leia apenas a primeira frase de cada parágrafo, em sequência. Elas devem contar o argumento inteiro sozinhas. Se não contarem, o problema é de progressão e nenhuma correção de superfície vai resolver. Depois verifique contradição, relevância de cada trecho e estabilidade de sentido dos termos usados.
Parágrafo curto conta como coesão?
Conta, no ambiente de leitura atual. Os cinco mecanismos de 1976 descrevem operações da língua, não da página, e a segmentação visual faz um trabalho adicional que o texto lido em tela, rápido e com interrupção, precisa muito. O critério de corte, no entanto, não é tamanho: um parágrafo trata de uma coisa, e a quebra acontece quando o assunto muda, mesmo que ele tenha ficado curto.
Como saber se o problema do meu texto é de coesão ou de coerência?
Leia apenas a primeira frase de cada parágrafo, em sequência, ignorando o resto. Se elas contarem o argumento inteiro e fizerem sentido juntas, o problema está na superfície e se conserta com pronomes, conectivos e repetição de termos. Se não contarem, o problema é de coerência, e nenhuma correção de superfície vai resolver: a ordem das ideias precisa mudar.
O que dá para copiar de Saramago em texto de trabalho?
Quatro coisas: repetir o termo exato sem procurar sinônimo, manter um pronome por antecedente disponível, explicitar a relação onde o texto convencional deixaria implícita e usar cada termo sempre no mesmo sentido. O que não se deve copiar é a supressão de pontuação, que funciona num projeto literário e torna ilegível qualquer documento de trabalho.
Veja também
A próxima engrenagem chega amanhã
Receba o próximo texto desmontado no seu email. Todo dia, às 09:09. Gratuito.
1 email/dia · 5 minutos · Cancele quando quiser