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A Desmontagem do Dia
O Defunto Autor
Machado de Assis e a engenharia do narrador que escreve depois de morto
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Machado mata o narrador antes da primeira página e ganha uma liberdade que nenhum escritor vivo tem. O defunto autor é menos travessura e mais alavanca estrutural. Vale abrir essa máquina com calma.
Em 1881, um romance brasileiro começou com uma dedicatória dirigida ao primeiro verme que roeu a carne fria do seu próprio narrador. Não é metáfora. Memórias Póstumas de Brás Cubas é contado por um homem que já morreu, e que faz questão de avisar isso na largada. A primeira frase do livro estabelece, sem rodeio, que aquele que fala está debaixo da terra.
Quase ninguém repara no que essa escolha de uma única linha libera. Matar o narrador antes da primeira página não é um truque mórbido nem um floreio gótico. É uma decisão de engenharia que destrava um tom de voz impossível para qualquer narrador vivo.
Vamos desmontar.
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Logo na abertura, Brás Cubas se apresenta com uma classificação que parece um detalhe e é a viga mestra de todo o livro:
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"Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado."
Brás Cubas, em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
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A última expressão carrega o livro inteiro: obra de finado. Repare na ordem em que ele faz as coisas. Primeiro afronta o leitor dizendo que talvez tenha cinco leitores e que isso não o consterna. Depois assume que o livro é difuso, rabugento, pessimista. E só então explica a fonte de toda essa liberdade: quem escreve está morto.
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Essa é a engrenagem. Um narrador vivo que dissesse "talvez eu tenha cinco leitores e pouco me importa" soa amargo, defensivo, ressentido. O leitor desconfia: o que ele está escondendo? que mágoa fala por trás disso? Um narrador morto que diz a mesma coisa soa apenas honesto.
Ele não tem mais nada a ganhar. Não busca aprovação, não corteja, não vende imagem. A morte removeu o interesse, e ao remover o interesse, removeu a suspeita.
Veja o que acontece com a ironia a partir daí. Quando Brás Cubas mais adiante narra a própria vida e ri das próprias vaidades, o riso não tem o azedume de quem ainda compete no mundo. É o riso de quem já saiu do jogo e olha para trás. A frase mais célebre do livro nasce dessa posição:
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"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
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Um vivo dizendo isso é trágico, parece desistência ou crueldade. O defunto dizendo isso é cômico e lúcido ao mesmo tempo, porque ele já viu o fim da história e pode debochar dela. A ironia precisa dessa distância para não virar lamento. E só a morte entrega distância total.
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Machado não usa o narrador morto para contar histórias de além-túmulo. A morte não está no enredo. Está na posição de quem narra. É um recurso de ponto de vista, não de trama, e por isso opera em cada frase, não só nas cenas sobrenaturais que o livro nem tem.
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O princípio que Machado opera em Brás Cubas tem um nome:
A posição do narrador define o que a voz pode dizer impunemente.
Antes de escolher as palavras, escolha de onde elas saem. Um narrador que não tem mais nada a perder, a ganhar ou a provar pode ser cruel, honesto e engraçado sem soar mesquinho, porque o leitor não detecta interesse por trás da fala. A morte é a forma mais radical de remover esse interesse, mas não é a única.
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A regra prática. Quando uma ironia sua estiver soando amarga, não conserte a frase. Mude quem a diz. O problema quase nunca está na palavra; está na posição de quem fala.
Como afastar o narrador do jogo. Pela morte, como Machado. Mas também pela velhice, pela renúncia, ou pelo desfecho já conhecido (quem narra de um ponto onde tudo já aconteceu não compete mais com o que conta). Qualquer uma dessas distâncias transforma a mesma frase de ressentimento em lucidez.
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Antes de escrever a frase difícil, decida de onde ela é dita. A distância certa deixa você ser duro sem parecer interessado.
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Exercício: tire o narrador do jogo
Pegue um parágrafo seu em que você critica algo (uma ideia, uma pessoa, você mesmo) e que está soando rancoroso. Reescreva-o uma vez a partir de um narrador que já não disputa nada: alguém no fim da vida, ou olhando para o episódio dez anos depois, ou que já perdeu o que tinha a perder ali.
Não mude os fatos nem o julgamento. Mude só a distância de quem fala. Compare as duas versões: a segunda quase sempre fica mais livre para ser dura, porque deixou de parecer interessada.
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador só revela que está morto nas últimas páginas, depois de contar a vida inteira como um homem vivo.
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