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Engenharia da Escrita - Guimarães Rosa e o Nonada inicial
Engenharia da Escrita

A Desmontagem do Dia

O Livro que Começa Falando

A engenharia do começo no meio da fala em Grande Sertão: Veredas

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Página manuscrita aberta na bancada de relojoeiro, a palavra Nonada destacada à pena, engrenagem dourada em foco sobre o ébano
 
 

Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!

Guimarães Rosa abre o maior romance brasileiro com uma palavra que nenhum dicionário registra e uma conversa que já começou sem você. A desorientação é calculada peça por peça. Entre pela porta do meio.

Em 1956, um romance brasileiro abriu com uma palavra que não existe em nenhum dicionário: "Nonada". Logo depois, sem nenhuma apresentação, sem dizer quem fala nem com quem, o texto já responde a uma pergunta que nunca ouvimos. Alguém disparou um tiro lá fora, e o narrador comenta como se você estivesse sentado na sala dele há horas.

Você chegou no meio. E o livro não para para te explicar nada.

Esse começo no meio da fala não te conta sobre um homem do sertão, ele te senta na frente dele com a conversa já quente. A mecânica por trás é uma das mais econômicas que existem para criar intimidade instantânea.

Vamos desmontar.

 
 
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I

A Desmontagem

 

A abertura de Grande Sertão: Veredas é esta:

 

"Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego."

Primeiras linhas de Grande Sertão: Veredas, 1956

 

Leia devagar. Repare em tudo que está faltando.

Não há "Era uma vez". Não há descrição do sertão, do tempo, da casa. Não há um narrador que se apresenta: "meu nome é tal, vou contar minha história". A primeira palavra é "Nonada", que o leitor nem conhece, e que significa algo como "bobagem, coisa nenhuma, nada que importe".

Antes de entender o livro, o leitor já recebe um gesto de desdém de alguém que está em plena conversa.

E aqui está a peça central. Aquele "o senhor". O narrador se dirige a um interlocutor presente: um visitante da cidade que veio escutar o velho jagunço. Quando o texto diz "tiros que o senhor ouviu", ele pressupõe uma cena que já estava acontecendo e uma pergunta anterior, do tipo "que tiros foram esses?", que o narrador agora responde.

A pergunta nunca aparece. Só a resposta.

 

O antes inventado. Ao começar pela resposta a uma pergunta que não vimos, o texto cria por implicação um antes. Um momento que existiu fora da página, segundos antes da primeira palavra.

O leitor é jogado num tempo que já estava correndo, numa conversa que já tinha começado, e a sensação é física: a de quem entra numa sala onde duas pessoas já falam e precisa correr atrás do assunto.

A cadeira ocupada. Numa abertura convencional, o leitor é plateia: o livro se arruma, acende as luzes, e então começa a contar. Aqui não há arrumação. O leitor é absorvido para dentro do lugar daquele "senhor". Ele vira o visitante que está ouvindo. A intimidade não é descrita, ela é imposta pela gramática: o "o senhor" puxa você para a cadeira em frente ao narrador.

 

E a palavra inventada faz o contrapeso. "Nonada" avisa, num só golpe, que a voz que fala não é a sua, não é neutra, não é a língua do dicionário. É a fala de um homem específico, de um lugar específico, com um jeito próprio de torcer o português.

Antes de saber o que aconteceu, você já sabe quem está falando, só pelo som de uma palavra que ninguém mais diria.

O começo no meio da fala é um sequestro educado. Ele não pede licença para te apresentar a história. Ele te coloca dentro dela e confia que você se vire.

 
 
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II

A Engrenagem

 

O princípio em operação aqui tem um nome:

O Começo no Meio da Fala.

Abrir um texto não pela arrumação do cenário, mas por uma fala ou um gesto que pressupõe um momento anterior, jogando o leitor dentro de uma cena já em curso em vez de sentá-lo na plateia.

A força do mecanismo está em três escolhas.

Mecanismo 1. Resposta sem pergunta. O narrador responde a algo que nunca enunciamos ("tiros que o senhor ouviu"). Uma resposta solta obriga o leitor a inventar a pergunta, e quem completa a lacuna fica preso na cena, porque agora ela é parcialmente obra dele.

Mecanismo 2. Um "você" dentro da página. O "o senhor" não é o leitor abstrato, é um interlocutor presente. Esse segundo personagem mudo abre uma vaga na sala, e a gramática empurra o leitor para dentro dela. Você não lê sobre uma conversa, é colocado em um dos lados dela.

Mecanismo 3. A voz antes da informação. "Nonada" entrega o jeito de falar antes de entregar qualquer fato. Quando a voz chega primeiro, a história inteira passa a ser ouvida por dentro dela, não relatada de fora.

 

Para criar intimidade imediata, não apresente a cena, entre nela atrasado. Comece por uma fala que responda a algo invisível, deixe um "você" presente na sala, e deixe a voz chegar antes dos fatos. O leitor que corre atrás de uma conversa já em curso esquece que está lendo.

 
 
 
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III

Na Oficina

 

O exercício da resposta sem pergunta

 

Pegue qualquer texto seu que comece se apresentando ("Meu nome é... Vou contar...", "Era uma manhã de..."). Apague essa abertura inteira. Agora escreva a primeira linha como se fosse a resposta a uma pergunta que o leitor não ouviu, dita a alguém que está na sala: "Não, o barulho não foi nada disso, moço." Ou: "A senhora quer mesmo saber por que eu fui embora?"

Repare que de imediato surgem duas coisas que você não escreveu: uma pergunta anterior e uma segunda pessoa presente. Leia em voz alta e sinta a diferença de posição: na versão antiga você narrava para uma plateia, na nova você fala com alguém.

Se sentir vontade de explicar quem é esse "moço" ou essa "senhora" logo abaixo, segure a explicação por mais um parágrafo. O começo no meio da fala só prende enquanto o leitor ainda está correndo atrás do assunto.

 

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Verdadeiro ou Falso: na abertura de Grande Sertão: Veredas, o narrador primeiro se apresenta e descreve o cenário antes de responder sobre os tiros, para que o leitor entre na história com todo o contexto na mão.

VVerdadeiro FFalso

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Na edição de amanhã...

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