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Edição #008
O Defunto Autor
Machado de Assis e a engenharia da perspectiva impossível
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Bom dia, Engenheiro(a) da Escrita!
Em 1881, Machado de Assis publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas e abriu o livro com uma dedicatória que deveria ser impossível:
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"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas."
— Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas
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Um morto escrevendo. Um cadáver com saudade. Uma dedicatória a um verme. Na primeira frase, antes do primeiro capítulo, Machado já estabeleceu as regras do jogo: este narrador não obedece às leis da verossimilhança. E se não obedece à verossimilhança, não obedece a nada.
Essa liberdade total é a engrenagem central do livro. E uma das mais poderosas da história da ficção.
Vamos desmontar.
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O capítulo I — "Óbito do Autor" — começa assim:
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"Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço."
— Brás Cubas, Capítulo I — "Óbito do Autor"
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Desmonte essa passagem. Machado faz três coisas em um parágrafo.
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Primeiro: expõe a mecânica. O narrador discute abertamente as decisões narrativas. Diz que hesitou. Diz que considerou opções. Isso quebra a ilusão de naturalidade — você não está lendo uma história que 'acontece'. Está lendo uma história que está sendo construída diante de você.
Segundo: inverte a hierarquia. 'Não sou um autor defunto, mas um defunto autor.' Um autor defunto é alguém que escreveu e depois morreu. Um defunto autor é alguém que morreu e depois começou a escrever. A morte não é o fim da narrativa — é a condição da narrativa.
Terceiro: estabelece o tom. 'A campa foi outro berço' é ao mesmo tempo macabra e terna. Funesta e bem-humorada. Esse tom — que oscila entre o sarcástico e o melancólico sem nunca se fixar — é a marca de Brás Cubas.
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Agora observe o que a perspectiva impossível permite ao longo do livro. Brás Cubas não tem medo de julgamento — está morto, o que podem fazer? Não tem vaidade residual — já foi enterrado, de que adianta fingir? Não tem obrigação de ser coerente — mortos não devem nada a ninguém.
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Isso gera uma honestidade que nenhum narrador vivo conseguiria. Brás Cubas admite que foi vaidoso, covarde, medíocre. Conta casos amorosos com frieza clínica e ternura simultânea. Descreve seus próprios defeitos como quem descreve os defeitos de um móvel — com precisão, sem drama.
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E o leitor confia nele exatamente porque ele não tenta parecer melhor do que foi.
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Há um capítulo — 'O Delírio' — em que Brás Cubas, à beira da morte, tem uma alucinação em que cavalga um hipopótamo pelos séculos, vê a origem e o fim do mundo, conversa com a Natureza personificada. É um capítulo que seria inverossímil em qualquer romance realista. Mas num livro narrado por um morto, a inverossimilhança já é a regra. O delírio não quebra o contrato. É o contrato.
Machado entendeu que a perspectiva determina tudo. Não o que você conta — de onde você conta. Um narrador dentro dos eventos é limitado pela experiência. Um narrador fora dos eventos é limitado pela observação. Um narrador morto não é limitado por nada.
O último capítulo do livro termina com Brás Cubas fazendo um balanço:
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"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
— Brás Cubas, Capítulo CLX — "Das Negativas"
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É um dos finais mais amargos da literatura. Mas a amargura só funciona porque vem de alguém que já está do outro lado. Se um personagem vivo dissesse isso, seria melodrama. Vindo de um morto, é constatação. A perspectiva impossível transforma autocomiseração em verdade.
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O princípio que Machado opera em Brás Cubas tem um nome:
Perspectiva Impossível.
A ideia de que a posição do narrador em relação aos eventos não precisa ser verossímil — e que, quanto mais impossível a perspectiva, maior a liberdade narrativa. Um morto narrando. Um objeto narrando. Uma criança ainda não nascida narrando. Uma cidade narrando. Qualquer ponto de vista que não poderia existir na realidade, mas que, ao existir na ficção, libera possibilidades que nenhuma perspectiva realista permitiria.
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No nível da honestidade: o narrador impossível não tem reputação a proteger, não tem futuro a comprometer. Isso permite uma franqueza que narradores 'normais' não podem ter.
No nível da forma: a perspectiva impossível autoriza rupturas. Capítulos de uma página. Digressões filosóficas no meio de cenas de amor. Listas, aforismos, capítulos sem palavras. A impossibilidade inicial é uma licença permanente.
No nível do tom: o narrador que já morreu pode rir de tudo, inclusive de si mesmo, inclusive da morte. E o humor que nasce dessa posição é inimitável — não é cinismo, não é ironia. É a graça de quem não tem mais nada a temer.
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Exercício 1 — O narrador impossível
Escolha um evento da sua vida — algo real, algo que importou. Agora reescreva esse evento do ponto de vista de alguém (ou algo) que não poderia narrá-lo: você mesmo daqui a cinquenta anos, já morto. Ou a cadeira onde você sentou. Ou a casa onde aconteceu.
Observe o que a perspectiva impossível libera. Que verdades você consegue dizer dessa posição que não conseguiria da primeira pessoa convencional?
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Exercício 2 — O balanço final
Escreva o último parágrafo de uma autobiografia imaginária. O narrador já morreu e está fazendo o balanço da vida. Não pode mentir — não tem motivo. Não pode exagerar — não tem plateia. Escreva com a precisão de quem não tem mais nada a perder.
Perceba como a perspectiva muda o que você se permite escrever. A morte fictícia do narrador é uma ferramenta de honestidade real do escritor.
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Exercício 3 — A licença da impossibilidade
Pegue um texto funcional que você precisa escrever — um email, um relatório, um post. Antes de escrever, pergunte: se o narrador deste texto pudesse ser qualquer coisa — uma inteligência artificial, um habitante do futuro, um objeto do escritório — qual perspectiva impossível geraria mais clareza, mais honestidade, mais interesse?
Você não precisa usar a perspectiva impossível no texto final. Mas escrever um rascunho dessa posição libera verdades que o rascunho convencional esconderia. E essas verdades podem depois migrar pro texto 'normal' — agora livres.
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Até a próxima sexta com a mecânica invisível das palavras.
Ars latet arte sua.
— Henrique
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☞ Quiz da edição
Verdadeiro ou Falso: Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis dedicou o livro ao verme que primeiro roeu as frias carnes do seu cadáver.
Clique para descobrir se acertou.
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Engenharia da Escrita
A mecânica invisível das palavras
Toda sexta-feira às 09:09. Desmontamos o que funciona. Extraímos o princípio. Construímos melhor.
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